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Diagnóstico tardio de autismo em adultos: por que tantos chegam só depois dos 30

Dr. Diego Tinoco

Diagnóstico tardio de autismo em adultos: por que tantos chegam ao consultório só depois dos 30

Nas últimas duas décadas, o número de adultos buscando avaliação para Transtorno do Espectro Autista (TEA) cresceu de forma consistente em vários países. No Reino Unido, um estudo de Russell e colaboradores (2022) com mais de 9 milhões de registros eletrônicos mostrou aumento de 787% nos diagnósticos de autismo entre 1998 e 2018 — com a maior parte da expansão concentrada justamente em adolescentes e adultos.1

Não se trata de "modismo". Trata-se de uma geração perdida: adultos que sempre foram autistas, mas atravessaram a infância sem que o diagnóstico fosse considerado.2

O que define autismo, segundo os manuais

O DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) define o Transtorno do Espectro Autista (código 299.00) por dois eixos principais, presentes desde os primeiros anos de vida:3

  • Déficits persistentes na comunicação e interação social em múltiplos contextos (reciprocidade socioemocional, comportamentos não verbais, desenvolvimento e manutenção de relações);
  • Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (estereotipias, insistência em rotina, interesses muito intensos, sensibilidades sensoriais).

A CID-11 (OMS, 2022) usa o código 6A02 e adota critérios essencialmente compatíveis, com especificadores para presença ou ausência de deficiência intelectual e prejuízo de linguagem funcional.4

O DSM-5-TR também acrescentou um critério muitas vezes negligenciado: os sinais podem ter passado despercebidos na infância e só se tornarem evidentes quando as demandas sociais ultrapassam a capacidade compensatória da pessoa. É essa cláusula que abre espaço, formalmente, para o diagnóstico tardio.

Por que tantos não foram diagnosticados na infância

Vários fatores combinados explicam o atraso:

1. O conceito histórico de autismo era restrito

Até a década de 1990, autismo era amplamente associado a quadros com deficiência intelectual, ausência de fala funcional ou comportamentos marcantemente atípicos. Crianças com inteligência média ou alta, fala desenvolvida e capacidade de mascarar dificuldades sociais simplesmente não eram lembradas como possibilidade diagnóstica.

2. Apresentações menos óbvias passam batidas

Especialmente em meninas e em pessoas com QI preservado, o autismo costuma se manifestar de formas que rotulam diferentemente:5

  • "Criança tímida";
  • "Adolescente introspectivo";
  • "Pessoa muito sensível";
  • "Esquisita, mas inteligente";
  • "Difícil de fazer amizades, mas estudiosa".

Esses rótulos sociais costumam adiar ou substituir a avaliação clínica adequada.

3. Comorbidades chegam primeiro ao consultório

Frequentemente, o que leva o adulto autista ao psiquiatra não é o autismo em si — é o sofrimento secundário acumulado:

  • Ansiedade (transtornos de ansiedade são 2-3x mais frequentes em pessoas autistas);6
  • Depressão;
  • Esgotamento crônico;
  • Dificuldades em relacionamentos íntimos ou de trabalho;
  • Sensação persistente de não pertencimento.

O diagnóstico de autismo, quando feito, frequentemente reorganiza a leitura de todo esse histórico.

4. Camuflagem social (masking)

Muitos adultos passaram a vida aprendendo a imitar comportamentos sociais esperados — ensaiar falas, copiar expressões, suprimir estímulos. Esse esforço, hoje chamado de masking ou camouflaging, é especialmente comum em mulheres e está associado a maior risco de adoecimento psíquico e suicídio.7,8

Para um aprofundamento específico nesse mecanismo, ver camuflagem social no autismo.

O que costuma motivar a busca por avaliação na vida adulta

Os caminhos mais frequentes que vejo no consultório:

  • Diagnóstico de um filho ou sobrinho — e a pessoa começa a se reconhecer nos critérios;
  • Esgotamento profundo após anos de adaptação social forçada (chamado clinicamente de esgotamento autista);
  • Crise em transição de vida (faculdade, primeiro emprego, mudança de cidade, casamento, parto);
  • Conteúdo em redes sociais que aciona reconhecimento;
  • Avaliação por outra queixa (TDAH, ansiedade) que abre o leque diagnóstico.

Como é feita a avaliação clínica do autismo no adulto

Não existe exame de sangue, imagem ou teste único que confirme o diagnóstico. A avaliação é clínica, estruturada e considera múltiplas fontes de informação:9

  • Entrevista clínica detalhada com a pessoa adulta, incluindo histórico de desenvolvimento na infância (quando possível, com fonte colateral — pais, álbum de fotos, boletins escolares);
  • Instrumentos de triagem: AQ-50 (Autism-Spectrum Quotient), RAADS-R, CAT-Q (que avalia camuflagem) — úteis como ponto de partida, mas não substituem entrevista;
  • Instrumentos confirmatórios quando indicados: ADOS-2 (módulo 4 para adultos), ADI-R, aplicados por profissionais treinados;
  • Diagnóstico diferencial: ansiedade social, transtornos de personalidade esquizoide ou esquizotípica, transtorno obsessivo-compulsivo, TDAH (frequentemente coexiste).

O processo tipicamente envolve psiquiatra e neuropsicólogo trabalhando em conjunto. Em adultos, especialmente os que mascaram bem, a avaliação pode demandar várias sessões.

O que muda com o diagnóstico tardio

O diagnóstico em si não "trata" o autismo — o autismo não é uma doença a ser curada. Mas costuma trazer reorganizações importantes:

  • Releitura da própria história: muitos relatam alívio ao entender que o que viveram não foi "incompetência social" ou "preguiça emocional";
  • Estratégias práticas de manejo sensorial, social e ocupacional baseadas em evidência;
  • Tratamento de comorbidades com abordagem informada pelo autismo (psicoterapia adaptada, ajuste medicamentoso quando necessário);
  • Direitos legais: no Brasil, a Lei 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) reconhece a pessoa autista como pessoa com deficiência para todos os fins legais, garantindo acesso a benefícios e adaptações.

O que NÃO muda com o diagnóstico

É importante deixar claro:

  • Você é a mesma pessoa antes e depois do laudo;
  • Não há "medicação para autismo" — eventuais medicações tratam comorbidades (ansiedade, depressão, TDAH);
  • O diagnóstico não obriga ninguém a se identificar publicamente como autista;
  • Não existe versão "mais grave" ou "mais leve" hierarquizada — o espectro descreve um perfil de funcionamento, não um ranking.

Quando procurar avaliação

Procure avaliação especializada se você se reconhece em vários destes pontos, de forma persistente desde a infância:

  • Dificuldade marcante em entender intenções sociais "implícitas";
  • Esgotamento intenso após interações sociais que parecem fáceis para outros;
  • Sensibilidade sensorial significativa (sons, luzes, texturas, cheiros);
  • Interesses muito intensos e focados, com aprofundamento incomum;
  • Necessidade marcada de previsibilidade e rotina;
  • Histórico de "se sentir alienígena" entre as pessoas;
  • Acúmulo de ansiedade, depressão ou esgotamento sem causa única identificável.

Em emergência (ideação suicida, crise psíquica): SAMU 192, CVV 188 (24h, gratuito) ou pronto-socorro mais próximo.

Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. O diagnóstico de autismo no adulto requer avaliação clínica estruturada, conforme regulamentação do CFM. Para conhecer mais sobre o atendimento, veja a página autismo em adultos.

Referências

  1. Russell G, Stapley S, Newlove-Delgado T, et al. Time trends in autism diagnosis over 20 years: a UK population-based cohort study. J Child Psychol Psychiatry. 2022;63(6):674-682. DOI: 10.1111/jcpp.13505
  2. Lai MC, Baron-Cohen S. Identifying the lost generation of adults with autism spectrum conditions. Lancet Psychiatry. 2015;2(11):1013-1027. DOI: 10.1016/S2215-0366(15)00277-1
  3. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787
  4. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Geneva: WHO; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
  5. Hull L, Petrides KV, Mandy W. The female autism phenotype and camouflaging: a narrative review. Rev J Autism Dev Disord. 2020;7(4):306-317. DOI: 10.1007/s40489-020-00197-9
  6. Hollocks MJ, Lerh JW, Magiati I, Meiser-Stedman R, Brugha TS. Anxiety and depression in adults with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2019;49(4):559-572. DOI: 10.1017/S0033291718002283
  7. Hull L, Petrides KV, Allison C, et al. "Putting on My Best Normal": Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. J Autism Dev Disord. 2017;47(8):2519-2534. DOI: 10.1007/s10803-017-3166-5
  8. Cassidy S, Bradley L, Shaw R, Baron-Cohen S. Risk markers for suicidality in autistic adults. Mol Autism. 2018;9:42. DOI: 10.1186/s13229-018-0226-4
  9. Huang Y, Arnold SR, Foley KR, Trollor JN. Diagnosis of autism in adulthood: a scoping review. Autism. 2020;24(6):1311-1327. DOI: 10.1177/1362361320903128

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

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